Em entrevista durante missão técnica no Brasil, Xiaofang Zhou, diretora do Protocolo de Montreal e Químicos e Resíduos do PNUD, destaca avanços do país na proteção da Camada de Ozônio e na transição para tecnologias de refrigeração de baixo impacto climático.
"A cooperação internacional é essencial para acelerar soluções de refrigeração que protejam o clima."
18 de Março de 2026
Xiaofang: O Brasil tem sido uma parte essencial do Protocolo de Montreal desde o início e contribui para o sucesso do tratado em múltiplos aspectos.
A missão técnica da Secretaria do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo de Montreal chegou ao Brasil em um momento decisivo para o avanço da Emenda de Kigali no país, fortalecendo a cooperação internacional e a coordenação nacional para a redução do consumo de HFCs.
Durante agenda em Brasília, a equipe do PNUD conversou com Xiaofang Zhou, diretora de Montreal Protocol and Chemicals & Waste, sobre a relevância global do Protocolo de Montreal, o papel do Brasil na transição para tecnologias de refrigeração sustentáveis e os desafios para ampliar a participação de mulheres em áreas de ciência, engenharia e tecnologias ambientais. Com mais de duas décadas de experiência na implementação do Protocolo de Montreal, Xiaofang lidera iniciativas globais de redução de substâncias que destroem a Camada de Ozônio e de transição para alternativas de baixo Potencial de Aquecimento Global (GWP), apoiando mais de 120 países. Confira abaixo os principais trechos de sua entrevista ao site do PNUD Brasil.
Um acordo global que une países e gera resultados concretos para o clima, a saúde e o planeta
O Protocolo de Montreal é reconhecido mundialmente como o acordo ambiental mais bem-sucedido da história, e isso não ocorreu por acaso. Ele se tornou um tratado universal justamente porque, ao longo de quase quatro décadas, todos os países trabalharam juntos de forma coordenada, transparente e baseada na ciência.
Vários elementos explicam esse sucesso. O Protocolo conta com um sistema sólido de monitoramento e reporte de dados, um arcabouço de políticas consistente, mecanismos eficazes de transferência de tecnologia, compartilhamento de conhecimento, redes de capacitação apoiadas pelas Nações Unidas e, sobretudo, um mecanismo financeiro sustentável, que garante que países em desenvolvimento possam cumprir suas metas.
Outro ponto fundamental é que o tratado sempre foi inclusivo: contempla desde a produção até o consumo, envolvendo todos os setores impactados. O setor privado, em particular, recebe apoio direto para realizar a transição tecnológica, e isso gerou um ciclo de forte inovação, permitindo que novas soluções mais limpas fossem adotadas globalmente.
Como todos os países utilizam o mesmo arcabouço e seguem as mesmas regras, o Protocolo oferece um sinal claro e confiável para governos, empresas e sociedade. E, graças a esse modelo, contamos hoje com um dos sistemas de avaliação científica mais robustos no campo Como todos os países utilizam o mesmo arcabouço e seguem as mesmas regras, o Protocolo oferece um sinal claro e confiável para governos, empresas e sociedade. E, graças a esse modelo, contamos hoje com um dos sistemas de avaliação científica mais robustos no campo ambiental. É uma grande satisfação ver que, depois de quatro décadas de cooperação internacional, estamos próximos de alcançar a recuperação total da Camada de Ozônio por volta de meados do século. Esse é um resultado histórico para o planeta.
Protagonismo brasileiro na proteção da Camada de Ozônio e na transição para tecnologias mais sustentáveis
O Brasil tem sido uma parte essencial do Protocolo de Montreal desde o início e contribui para o sucesso do tratado em múltiplos aspectos. O país sempre cumpriu, e muitas vezes superou, suas metas de eliminação de substâncias que destroem a Camada de Ozônio, desde CFCs e halons, passando por HCFCs, até o atual processo de implementação da Emenda de Kigali e a redução de HFCs. O Brasil ratificou todos os instrumentos jurídicos do Protocolo, demonstrando um compromisso técnico, institucional e político extremamente consistente.
Esse histórico se reflete em resultados concretos: o país já eliminou quase 19 mil toneladas de Potencial de Depleção do Ozônio (PDO), o que representa benefícios diretos para a saúde pública e o meio ambiente, como menor incidência de câncer de pele, preservação de ecossistemas e redução de riscos ocupacionais para trabalhadores que lidam com substâncias controladas.
É um país que se destaca não apenas pela implementação, mas também pela sua atuação diplomática: participa ativamente das negociações internacionais, das discussões de políticas, diretrizes e processos decisórios. Suas contribuições técnicas são amplamente reconhecidas e muito apreciadas pela comunidade internacional.
Inclusão, ciência e novas gerações: por que equidade de gênero é essencial
A igualdade de gênero é um princípio central para o PNUD e deve ser incorporada em todos os nossos programas. O próprio Fundo Multilateral exige que as agências de implementação considerem a equidade de gênero no desenho e na execução dos projetos, o que nos impulsiona a criar oportunidades concretas para mulheres em diferentes etapas da cadeia produtiva da refrigeração.
Há várias formas de promover essa inclusão. Nas áreas urbanas, por exemplo, muitas mulheres são usuárias diretas de equipamentos de refrigeração e ar‑condicionado. Capacitar essas consumidoras para reconhecer boas práticas, escolher equipamentos mais eficientes e climaticamente responsáveis, e reduzir custos de uso é uma forma importante de ampliar autonomia e acesso à informação.
No setor de fabricação e de serviços, que historicamente emprega mais homens do que mulheres, ainda observamos barreiras culturais, estruturais e de acesso à formação técnica. Mas também vemos inúmeros exemplos de mulheres que lideram processos de inovação, desenvolvem tecnologias alternativas e assumem posições estratégicas em diferentes países. Muitas delas estão envolvidas em pesquisas de ponta, em áreas técnicas e em decisões de políticas públicas, incluindo a liderança de Unidades Nacionais de Ozônio. Essas experiências mostram que não há razão para que mulheres sejam excluídas do setor. Ao contrário, sua participação traz inovação, novas perspectivas e capacidades essenciais para a transição climática.
Como o PNUD impulsiona a agenda global de transição de fluidos refrigerantes de baixo impacto climático
O PNUD é uma das quatro agências de implementação do Fundo Multilateral desde 1991 e, ao longo dessas três décadas, desempenhou um papel central no apoio aos países na proteção da camada de ozônio. Nosso portfólio atual abrange cerca de 50 países, mas, desde as fases iniciais do Protocolo, já apoiamos 120 países por meio de diferentes modalidades de cooperação.
Trabalhamos diretamente com governos e indústrias para fortalecer capacidades institucionais, desenvolver políticas e facilitar a transição para tecnologias mais limpas. Por meio de projetos de fortalecimento institucional, ajudamos na criação e estruturação de unidades nacionais de ozônio. Também conduzimos projetos de pesquisa, demonstração e pilotos tecnológicos, que permitem testar alternativas e desenvolver soluções inovadoras, muitas delas posteriormente replicadas em outros países e setores industriais.
Outro aspecto essencial é que o PNUD auxilia países na elaboração de propostas, na obtenção de financiamento do Fundo Multilateral e na implementação de todos esses programas. É um trabalho contínuo de apoio técnico, financeiro e operacional, que tem resultado em avanços concretos em diversas regiões do mundo.
Tenho muito orgulho da parceria construída com tantos países ao longo desses anos e especialmente com o Brasil. Trabalhamos juntos por mais de três décadas e implementamos com sucesso todos os projetos financiados pelo Fundo Multilateral. O Brasil tem sido um parceiro estratégico e comprometido, e é uma satisfação seguir contribuindo para suas ações nacionais no âmbito do Protocolo de Montreal e da Emenda de Kigali.