Ação faz parte do Programa Brasil-Angola de Formação de Recursos Humanos em Saúde, que tem apoio do PNUD.
Médicos angolanos concluem residência no Brasil
25 de Agosto de 2025
A iniciativa visa formar profissionais angolanos em especialidades médicas consideradas prioritárias para o fortalecimento do sistema de saúde local, com foco na expansão da atenção básica.
“Ao voltar para Angola, levo não apenas conhecimento técnico, mas a missão de promover a humanização e a prevenção na saúde. Quero ser um agente de transformação, defendendo um sistema que valorize cada vida, onde todos se sintam ouvidos e respeitados”. Assim o médico angolano Barnabé Ilídio Chatulica resume sua experiência como residente em medicina no Brasil.
Com outros 105 médicos angolanos, Chatulica encerrou um ciclo de três meses de residência, durante o qual pôde aprofundar seus conhecimentos em “Medicina de Família e Comunidade”. Os profissionais angolanos, que passaram por hospitais e centros de saúde brasileiros, retornaram a seu país prontos para aplicar o que aprenderam e ajudar a consolidar a atenção primária por lá.
A formação integra o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde, iniciativa de cooperação entre Brasil e Angola, assinada em 2024, com o objetivo de apoiar o fortalecimento do sistema nacional de saúde angolano por meio da capacitação técnica de profissionais em áreas estratégicas, como medicina da família, telemedicina, gestão em saúde e cuidado integral.
O programa é coordenado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, em conjunto com os Ministérios da Saúde e da Educação, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) e o Ministério da Saúde de Angola, com apoio do PNUD. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Campinas (UNICAMP) também integram a parceria.
Ao todo, 106 médicos angolanos passaram pela USP, em seus diferentes campi em Ribeirão Preto e na capital, pela UNICAMP, e por instituições de saúde de Belo Horizonte. Eles fizeram parte das equipes de unidades básicas de saúde, acompanharam agentes comunitários, participaram de consultas compartilhadas e discutiram casos com pediatras, ginecologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e especialistas em saúde mental, e ainda assistiram a aulas teóricas junto aos estudantes brasileiros. Eles tiveram contato também com práticas integrativas como acupuntura, expressão corporal e medicina tradicional chinesa — experiências que ampliaram sua visão sobre o cuidado em saúde pública.
Aprendizado mútuo – Para o professor Rubens Bedrikow, coordenador do programa pela UNICAMP, a experiência foi enriquecedora para os dois lados. “Eles já fazem medicina de família em Angola, mas o que é específico do Brasil — como o trabalho das equipes multidisciplinares, os centros de atenção psicossocial, o uso da telemedicina — eles estão conhecendo agora. A troca tem sido muito viva, muito rica. Aprendemos muito com eles também.”
Na Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, onde onze médicos angolanos foram alocados, a parceria com a Secretaria Municipal de Saúde proporcionou vivência em unidades de saúde da família, com especial atenção ao acompanhamento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes.
“O médico da família é o futuro. É como um clínico geral especializado em atenção primária à saúde. Essa modalidade conversa muito mais com a cultura dos africanos, em que se valorizam a comunidade, a família, o contato próximo. É uma experiência de formação e de conexão cultural”, afirma o professor Amaury Ribeiro Brito, na coordenação central da atuação primária da faculdade.
A residência no Brasil foi a etapa final de um ciclo que começou em Angola e passou por Portugal. Apesar do tempo curto — apenas três meses —, os profissionais tiveram um cronograma intenso: quatro dias de prática e um dia de aulas teóricas ao lado de residentes brasileiros. Participaram também de encontros culturais e apresentaram aspectos da história, gastronomia, idioma e realidade sanitária angolana, promovendo verdadeiro intercâmbio entre os sistemas de saúde dos dois países.
“Ao ver os profissionais brasileiros em ação, percebi que eles não eram apenas médicos e enfermeiros; eram verdadeiros guardiões da saúde”, atesta Chatulica. “Uma imagem marcante foi a de uma equipe realizando visitas domiciliares, levando cuidados e atenção aos pacientes em suas próprias casas. Aquela conexão pessoal e a dedicação que vi durante essas visitas me arrepiaram e confirmaram que a empatia é a chave para um atendimento eficaz”, completa, entusiasmado, com a experiência vivida em Ribeirão Preto.
A vinda dos médicos ao Brasil foi possível graças ao acordo assinado, em 2024, entre os governos do Brasil e de Angola, que instituiu o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola. A cerimônia de assinatura contou com a presença da ministra da Saúde angolana, Silvia Lutucuta, por ocasião de sua visita ao Brasil.
A iniciativa visa formar profissionais angolanos em especialidades médicas consideradas prioritárias para o fortalecimento do sistema de saúde local, com foco na expansão da atenção básica.
O programa inclui, sobretudo, a formação de profissionais angolanos no Brasil em hospitais de instituições formadoras identificados pela EBSERH e pelo Ministério da Saúde, em diversas modalidades de ensino, tais como fellowship (nos moldes de residência), doutorado, mestrado, especialização, aperfeiçoamento e estágio complementar.
Contribuição da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores.